Trabalho formal, informal e a consultoria como alternativa
- Régis Souza

- 15 de jan.
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O mercado de trabalho brasileiro vive um processo de transformação estrutural que impacta diretamente a forma de acesso ao emprego, à renda e à estabilidade profissional. A retração progressiva dos vínculos formais regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), combinada à elevada carga tributária incidente sobre a folha de pagamento e às dificuldades crescentes de contratação, tem reduzido significativamente a capacidade das organizações de manter quadros fixos e estáveis. Esse movimento ocorre em paralelo a um cenário paradoxal, no qual há escassez de mão de obra qualificada em determinados setores, ao mesmo tempo em que se observa a diminuição das oportunidades formais de trabalho.
Nesse contexto, a pejotização assume papel central na reconfiguração da empregabilidade. Para muitos empregadores, a contratação por meio de pessoas jurídicas representa uma estratégia de redução de custos, transferência de riscos e flexibilização das relações de trabalho, a pejotização também se consolida como uma forma de ocupação para a classe trabalhadora diante da escassez de alternativas. Para muitos profissionais, constituir uma pessoa jurídica deixa de ser uma escolha estratégica e passa a ser a única via possível de acesso ao trabalho e à renda, trata-se de uma adaptação forçada a um mercado cada vez mais restritivo, no qual o emprego formal se torna exceção e não regra. Essa modalidade, embora amplie o acesso imediato à renda, impõe custos elevados ao trabalhador, que assume riscos, instabilidade, ausência de garantias e responsabilidade integral por sua própria proteção social mas não é uma condição generalista, muitas organizações adequam suas contratações pejotizadas para aliviar a condição de trabalho, onde alguns benefícios da modalidade CLT podem ser considerados no pacote.
Nesse ambiente já pressionado, emerge o debate sobre a taxação da renda e do trabalho informal. O discurso oficial frequentemente justifica essa tributação como mecanismo de justiça fiscal e equilíbrio do sistema, contudo, observa-se um movimento oportunista do Estado, que, ao invés de criar incentivos estruturais para a retomada e fortalecimento do trabalho formal, opta por ampliar a carga tributária sobre modalidades de renda inseguras que já são fruto de um processo de precarização, assim, o governo passa a capturar parte da renda gerada desse tipo de modalidade, sem enfrentar as causas estruturais que levaram à retração da CLT.
O resultado desse conjunto de forças é um elevado custo social. A ampliação da pejotização e da informalidade não ocorre por ganhos de eficiência sistêmica, mas como resposta a um ambiente hostil à contratação formal. A proteção social se fragiliza, a previsibilidade de renda diminui e a responsabilidade pela sustentabilidade econômica desloca-se progressivamente do Estado e das organizações para o indivíduo. Ainda assim, o volume dessa modalidade cresce, sustentado pela necessidade imediata de sobrevivência econômica e pela ausência de alternativas viáveis.
É nesse cenário que a atividade de consultoria encontra espaço para se expandir e se consolidar de forma acelerada, apresentando vantagens claras e objetivas para as organizações. A contratação de consultorias permite acesso imediato a competências especializadas, muitas vezes indisponíveis internamente, sem a necessidade de arcar com os custos fixos, encargos trabalhistas e riscos jurídicos associados à contratação formal. Além disso, consultorias oferecem rapidez na mobilização de recursos, flexibilidade contratual e foco em entregas específicas, permitindo que as empresas ajustem sua capacidade produtiva conforme a demanda real do negócio. Outro benefício relevante está na objetividade e no olhar externo que as consultorias agregam, profissionais consultores atuam como uma predisposição maior ao risco e por isso, atuam orientados a resultados, metas e prazos definidos, reduzindo vieses internos, conflitos organizacionais e ineficiências estruturais, esse modelo favorece diagnósticos mais precisos, tomada de decisão baseada em evidências e implementação mais ágil de melhorias, especialmente em ambientes
complexos ou em processos de transformação organizacional.
Do ponto de vista econômico, a consultoria também representa previsibilidade de custos e melhor controle orçamentário, uma vez que os contratos são estabelecidos por escopo, projeto ou período determinado. Isso permite às organizações converter custos fixos em custos variáveis, aumentando a resiliência financeira em cenários de incerteza econômica. Em um ambiente marcado por elevada carga tributária e insegurança regulatória, essa característica torna-se estratégica.
Para os profissionais, especialmente aqueles com formação técnica, experiência acumulada ou atuação em nichos especializados, a consultoria surge não apenas como alternativa, mas como caminho estruturado de inserção no mercado. Esse modelo possibilita diversificação de projetos, ampliação do repertório profissional, maior autonomia e potencial de remuneração alinhado à complexidade das entregas. Embora envolva maior exposição a riscos, a atividade consultiva oferece uma forma mais sustentável de atuação em um mercado cada vez mais restrito em termos de empregos estáveis.
Assim, o avanço das consultorias não deve ser interpretado apenas como consequência da retração do trabalho formal, mas como uma resposta funcional e racional às limitações do modelo tradicional de emprego, tanto do ponto de vista organizacional quanto profissional. Trata-se de um arranjo que, embora não isento de desafios, oferece ganhos concretos de eficiência, especialização e adaptabilidade, assumindo riscos que antes eram compartilhados pelo sistema produtivo.
Dessa forma, a transformação das relações de trabalho no Brasil é um caminho sem volta, no qual a retração da CLT, a expansão da pejotização, a tributação oportunista da renda informal e o crescimento das consultorias não são fenômenos isolados, mas partes de um mesmo processo, trata-se de uma reconfiguração que vem ocorrendo de forma natural e que ainda tem muito para nos mostrar.




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